JPMorgan aponta Brasil como destaque entre emergentes e vê eleições como fator relevante para a Bolsa
Banco identifica correlação entre desempenho do mercado brasileiro e mudanças nas expectativas eleitorais, mas ressalta que fatores globais continuam determinantes
O Brasil aparece como o mercado emergente de melhor desempenho no último mês, segundo análise do JPMorgan, em um período no qual pesquisas eleitorais passaram a indicar uma disputa mais apertada entre os principais candidatos à Presidência.
Em relatório elaborado pela equipe de estratégia para mercados emergentes liderada por Emy Shayo Cherman, o banco afirma que o cenário eleitoral ganhou peso na formação dos preços dos ativos brasileiros. A instituição observa que, em períodos normais, fatores internacionais costumam explicar boa parte dos movimentos dos mercados latino-americanos, mas as eleições podem aumentar significativamente a influência dos fatores domésticos.
A análise, entretanto, não representa uma previsão de resultado eleitoral. Trata-se de uma avaliação sobre como diferentes cenários políticos podem ser incorporados pelos investidores aos preços de ações, juros e câmbio.
Mercado brasileiro passou a reagir ao cenário eleitoral
Segundo o JPMorgan, desde 1º de julho, o comportamento do MSCI Brasil apresentou relação com a evolução das probabilidades eleitorais observadas em mercados de apostas.
Em uma atualização divulgada pelo banco, o índice teria avançado, em média, cerca de 0,2% nos pregões em que aumentaram as probabilidades associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. O movimento teria se intensificado em setembro, chegando a aproximadamente 0,72% por sessão nessas circunstâncias, de acordo com os cálculos apresentados pela instituição.
O número é uma medida de associação entre duas séries e não significa que uma mudança nas pesquisas ou nas probabilidades eleitorais necessariamente provoque determinada alta da Bolsa.
No mesmo período, outros fatores também influenciaram os mercados, como juros internacionais, petróleo, câmbio, atividade econômica e decisões dos bancos centrais.
Por que eleições podem mexer tanto com os mercados?
O mecanismo observado pelo banco está relacionado à expectativa.
O mercado financeiro não espera necessariamente a confirmação de uma política econômica para reagir. Investidores podem ajustar posições antecipadamente diante da possibilidade de mudanças futuras em áreas como:
política fiscal;
tributação;
juros;
empresas estatais;
concessões;
regulação;
gastos públicos;
política cambial;
relação com investidores estrangeiros.
Por isso, alterações nas pesquisas eleitorais podem provocar mudanças nos preços antes mesmo da eleição.
Esse fenômeno é particularmente importante em mercados emergentes, nos quais as expectativas sobre política econômica podem ter impacto significativo sobre câmbio, juros e ações.
JPMorgan vê semelhança com a eleição de 2014
Ao comparar o cenário atual com eleições anteriores, o JPMorgan identifica algumas semelhanças com 2014, quando Dilma Rousseff e Aécio Neves disputaram a Presidência.
Naquele período, segundo o banco, a Bolsa apresentou queda antes da eleição e posteriormente registrou uma recuperação mais limitada.
A comparação, porém, não significa que 2026 necessariamente repetirá o comportamento daquele ano.
O próprio relatório destaca diferenças importantes entre os dois ciclos eleitorais, principalmente relacionadas à percepção do mercado sobre a possibilidade de mudança na condução econômica e à composição do Congresso.
O fator fiscal aparece no centro da análise
Um dos pontos mais importantes do relatório do JPMorgan é a possibilidade de uma mudança na percepção sobre a política fiscal brasileira.
O banco avalia que, em um cenário hipotético de maior disciplina fiscal, poderia ocorrer uma reprecificação dos ativos brasileiros.
Na análise publicada em setembro, o JPMorgan estimou que uma migração do mercado para um cenário de melhora poderia representar potencial de valorização de aproximadamente 28% para o MSCI Brazil, enquanto um cenário descrito pelo banco como de “ajuste estrutural” apontaria para uma valorização potencial ainda maior.
Esses números são cenários de valuation elaborados pelo banco, e não metas de retorno para o investidor.
Também não significam que o índice necessariamente atingirá esses níveis. O resultado dependeria da combinação entre política econômica, cenário internacional, lucros das empresas, juros, câmbio e percepção de risco.
O que é o MSCI Brazil?
O MSCI Brazil é um índice utilizado para representar o desempenho de uma cesta de ações brasileiras dentro da metodologia da MSCI.
Ele é diferente do Ibovespa, embora ambos sejam utilizados como referências para o mercado acionário brasileiro.
O Ibovespa é o principal índice da B3 e reúne ações selecionadas segundo critérios definidos pela bolsa. Já o MSCI Brazil é utilizado amplamente por investidores internacionais como referência para exposição ao mercado brasileiro.
Essa diferença é importante porque o comportamento dos dois índices pode não ser exatamente igual.
Brasil já vinha atraindo capital estrangeiro
A reação eleitoral ocorre em um mercado que já apresentava movimentos relevantes de fluxo internacional.
Dados divulgados no início de setembro mostraram entrada líquida de aproximadamente R$ 3,9 bilhões de capital estrangeiro na B3 nos três primeiros pregões do mês, enquanto o Ibovespa acumulava forte valorização no período.
No acumulado de 2026 até aquele momento, o saldo estrangeiro também permanecia positivo.
Isso mostra que a movimentação da Bolsa não pode ser atribuída exclusivamente às eleições.
Juros domésticos, decisões do Federal Reserve, preço das commodities, fluxo internacional e expectativas sobre a economia global continuam influenciando os ativos brasileiros.
Juros também respondem às expectativas políticas
O mercado de juros futuros fornece outro exemplo de como o cenário eleitoral pode ser incorporado aos preços.
Em setembro, as taxas dos contratos de DI recuaram em sessões nas quais pesquisas apontaram fortalecimento da candidatura de Flávio Bolsonaro, segundo dados reportados pela Reuters.
Esse movimento ocorreu mesmo com os rendimentos dos títulos do Tesouro americano apresentando comportamento diferente em determinados pregões.
Na prática, investidores estavam ajustando suas expectativas para o comportamento futuro da política econômica brasileira.
Mas, novamente, uma associação entre pesquisa e movimento de mercado não permite concluir que o resultado eleitoral esteja determinado ou que determinado ativo continuará subindo.
E o dólar?
O câmbio também entrou no processo de reprecificação.
Em 21 de setembro, o dólar à vista terminou a sessão a R$ 5,1080, com queda de 0,72%, em um ambiente que combinava fatores externos e o noticiário eleitoral brasileiro.
O próprio JPMorgan havia alertado anteriormente que diferentes cenários eleitorais poderiam produzir efeitos distintos sobre o real e sobre os prêmios de risco.
Isso evidencia uma característica importante do mercado: ações, juros e câmbio não necessariamente reagem da mesma maneira ao mesmo acontecimento político.
O cenário internacional continua importante
Apesar do peso crescente da política doméstica, o ambiente externo permanece decisivo para o Brasil.
Em setembro, por exemplo, o Federal Reserve elevou sua taxa básica para a faixa de 3,75% a 4%, enquanto o Banco Central brasileiro reduziu a Selic para 13,75% ao ano.
Além disso, petróleo, minério de ferro, dólar global e rendimento dos Treasuries continuam afetando diretamente ativos brasileiros.
A própria análise do JPMorgan ressalta que os fatores globais normalmente são os principais responsáveis pelos movimentos dos mercados latino-americanos. O diferencial, em períodos eleitorais, é que os fatores domésticos podem ganhar peso maior.
O que o investidor precisa observar até outubro
Com a aproximação da eleição, alguns indicadores passam a merecer atenção simultaneamente.
Pesquisas eleitorais: ajudam a medir o cenário político em determinado momento, mas são fotografias e podem mudar.
Curva de juros: mostra como o mercado está precificando inflação, Selic e risco fiscal no futuro.
Câmbio: reage tanto ao cenário doméstico quanto às condições internacionais.
Ibovespa e MSCI Brazil: permitem acompanhar como investidores locais e estrangeiros estão precificando as empresas brasileiras.
Fluxo estrangeiro: pode amplificar movimentos de alta ou de baixa.
Petróleo e commodities: têm influência importante sobre empresas exportadoras e sobre os termos de troca do país.
Política fiscal: continua sendo uma das variáveis mais observadas para a trajetória de juros e risco.
Análise Política 24H: o mercado está negociando expectativas, não certezas
O ponto mais relevante do relatório do JPMorgan é que o mercado brasileiro passou a incorporar expectativas eleitorais aos preços dos ativos com maior intensidade.
Isso não significa que a Bolsa esteja antecipando um resultado eleitoral definitivo.
Significa que investidores estão atribuindo diferentes valores aos ativos conforme avaliam possíveis cenários para a política econômica que poderá vigorar depois da eleição.
Essa distinção é fundamental.
Uma pesquisa pode mudar, uma campanha pode alterar sua estratégia e um cenário considerado provável hoje pode desaparecer em poucas semanas. Da mesma forma, mesmo uma mudança política favorável à percepção dos investidores não garante valorização da Bolsa, porque fatores externos e resultados empresariais continuam determinando os preços.
O cenário de 2026, portanto, combina eleições, juros, política fiscal, fluxo estrangeiro e ambiente internacional. É essa combinação — e não um único indicador eleitoral — que deverá determinar a trajetória dos ativos brasileiros nos próximos meses.
Para o investidor, acompanhar apenas quem está subindo ou caindo nas pesquisas pode ser insuficiente. O movimento mais importante está na forma como Bolsa, juros e câmbio estão transformando expectativas políticas em preços financeiros.
Fonte: JPMorgan, Reuters e informações de mercado compiladas em setembro de 2026.


