Lula busca aproximar PT dos trabalhadores de aplicativos e da nova economia
Em campanha, presidente retoma ligação histórica com o movimento sindical, mas enfrenta um mercado de trabalho marcado por informalidade, plataformas digitais e busca por flexibilidade
Quase cinco décadas depois de ganhar projeção nacional no movimento sindical do ABC paulista, Lula tenta adaptar o discurso trabalhista a uma realidade em que milhões de brasileiros já não têm a carteira assinada como principal referência profissional.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou uma nova etapa de sua campanha presidencial em São Bernardo do Campo (SP), cidade diretamente ligada à sua trajetória sindical e política. O cenário escolhido remete às greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando Lula se tornou uma das principais lideranças do movimento operário brasileiro.
O desafio eleitoral, entretanto, ocorre em um mercado de trabalho bastante diferente daquele que ajudou a formar a identidade política do Partido dos Trabalhadores.
A expansão do trabalho por aplicativos, o crescimento do empreendedorismo por necessidade ou escolha e a permanência de uma parcela expressiva dos trabalhadores na informalidade alteraram a relação entre emprego, renda e direitos trabalhistas.
O próprio Lula reconheceu essa transformação ao defender que o discurso do PT precisa alcançar um universo profissional que não se limita ao trabalhador com carteira assinada.
Do chão de fábrica à economia das plataformas
A mudança pode ser observada na estrutura do mercado de trabalho.
No fim de 2025, a taxa de desemprego brasileira estava em 5,1%, o menor nível da série histórica iniciada em 2012, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, havia 38,7 milhões de trabalhadores informais, equivalentes a 37,6% da população ocupada naquele trimestre.
O cenário mostra uma combinação que desafia a divisão tradicional entre emprego e desemprego: a ocupação está elevada, mas uma parcela significativa dos trabalhadores permanece fora das relações formais tradicionais.
O próprio IBGE vem ampliando a medição do chamado trabalho plataformizado. A pesquisa referente a 2025 passou a investigar também atividades secundárias, plataformas de comércio eletrônico, quantidade de plataformas utilizadas e frequência do trabalho por aplicativos. Os dados são classificados pelo instituto como estatísticas experimentais.
O que mudou para o trabalhador?
Para uma parcela dos trabalhadores de aplicativos, a principal vantagem não está necessariamente na estabilidade, mas na flexibilidade.
Motoristas e entregadores podem escolher, em diferentes graus, quando trabalhar e quantas horas permanecer conectados. Essa autonomia pode ser especialmente valorizada por quem não pretende retornar ao modelo tradicional de emprego.
Ao mesmo tempo, essa flexibilidade vem acompanhada de questões relacionadas à remuneração, contribuição previdenciária, proteção em caso de acidentes e doença, custos de equipamentos e veículos e dependência das regras estabelecidas pelas plataformas.
É justamente nesse ponto que aparece o desafio político para o PT: como oferecer proteção sem retirar uma autonomia que parte dos trabalhadores considera importante?
O PT tenta ampliar a pauta trabalhista
A resposta apresentada pelo partido passa por uma atualização da legislação trabalhista e pela criação de novas regras para atividades digitais.
Entre as propostas defendidas pela campanha de Lula estão o fim da escala 6×1, redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial e ampliação da proteção aos trabalhadores de plataformas. O PT também afirma que pretende atualizar a legislação para acompanhar as mudanças no mercado de trabalho.
Em abril, o governo já havia encaminhado ao Congresso um projeto propondo jornada de 40 horas semanais sem redução salarial.
A discussão sobre aplicativos inclui temas como remuneração mínima, previdência, condições de trabalho e transparência sobre os mecanismos utilizados pelas plataformas para determinar preços, distribuição de corridas e entregas e avaliação dos trabalhadores.
Flexibilidade é uma das principais questões
A relação entre autonomia e regulamentação é uma das questões mais complexas dessa discussão.
De um lado, trabalhadores podem buscar maior proteção contra quedas de remuneração, acidentes e ausência de cobertura previdenciária.
De outro, regras mais rígidas podem elevar os custos das plataformas ou alterar o modelo de trabalho que atrai parte dos motoristas e entregadores.
O debate, portanto, não envolve apenas a existência ou não de direitos, mas também qual modelo de proteção pode ser criado sem eliminar características que alguns trabalhadores valorizam no trabalho por aplicativo.
A nova geração de trabalhadores
A transformação também tem uma dimensão geracional.
O trabalhador que entrou no mercado nos últimos anos encontrou um ambiente diferente daquele vivido por gerações anteriores. A expansão do setor de serviços, o avanço da tecnologia e as mudanças no emprego industrial abriram espaço para novas formas de geração de renda.
O IBGE passou a investigar com maior profundidade justamente essa realidade. Na pesquisa de 2025, o instituto analisa, entre outros aspectos, rendimento, horas trabalhadas, cobertura previdenciária, informalidade e o grau de influência das plataformas sobre a jornada do trabalhador.
Isso permite uma análise mais precisa de uma questão que ganhou importância nas eleições: o que esses trabalhadores esperam do Estado?
Sindicalização perdeu espaço
Outro indicador ajuda a dimensionar o tamanho da mudança.
Em 2024, 8,9% dos trabalhadores ocupados eram associados a sindicatos, o equivalente a 9,1 milhões de pessoas. Embora tenha havido uma recuperação em relação a 2023, quando a taxa havia sido de 8,4%, o percentual permanece muito abaixo dos níveis registrados na década passada.
O dado ajuda a explicar por que a ligação histórica entre PT, sindicatos e trabalhadores não se reproduz automaticamente entre as novas categorias profissionais.
O trabalhador de aplicativo, por exemplo, não necessariamente se identifica como integrante de uma categoria profissional tradicional. Muitos trabalham simultaneamente em diferentes plataformas ou combinam atividades por aplicativo com outras fontes de renda.
A escala 6×1 entra no centro da disputa
A redução da jornada se tornou uma das principais bandeiras trabalhistas da campanha de Lula.
O PT defende o fim da escala 6×1 e uma jornada de 40 horas semanais, mantendo o salário. A proposta está inserida em uma agenda mais ampla de atualização das regras trabalhistas.
A discussão, porém, alcança trabalhadores muito diferentes entre si.
Para quem possui emprego formal, a mudança pode ser discutida dentro das regras tradicionais de jornada e negociação trabalhista. Para trabalhadores de aplicativos e outras formas de atividade autônoma, a questão é mais complexa, porque não existe necessariamente uma jornada previamente estabelecida por um empregador tradicional.
O desafio político do PT
A transformação do mercado de trabalho cria uma questão estratégica para o partido: como manter a identidade histórica de defesa dos trabalhadores sem limitar essa categoria ao modelo de emprego que existia quando o PT foi fundado?
A resposta apresentada pelo partido envolve ampliar o conceito de proteção social.
Isso significa incluir trabalhadores autônomos, profissionais de plataformas, empreendedores individuais e outras categorias que não se encaixam perfeitamente na relação tradicional entre patrão e empregado.
O PT afirma que pretende criar um sistema de proteção para trabalhadores da economia digital, incluindo regras sobre remuneração, condições de trabalho, previdência e transparência algorítmica.
O debate também envolve o setor empresarial
A regulamentação dos aplicativos não depende apenas da posição do governo ou dos trabalhadores.
As empresas argumentam que mudanças regulatórias podem aumentar custos e alterar o modelo de negócios das plataformas.
Por isso, qualquer novo marco precisará equilibrar diferentes interesses: proteção social, sustentabilidade econômica das plataformas, autonomia dos trabalhadores, arrecadação previdenciária e segurança jurídica.
O governo e o Congresso ainda precisam construir um desenho legislativo que estabeleça essas regras.
Uma disputa por uma classe trabalhadora diferente
O episódio em São Bernardo do Campo tem, portanto, um significado que vai além da escolha do local para o início da campanha.
O município simboliza o período em que a organização sindical e a indústria automobilística ajudaram a estruturar uma nova geração de trabalhadores e também a trajetória política de Lula.
Décadas depois, o cenário é outro.
A indústria continua relevante, mas o mercado de trabalho brasileiro é formado por uma combinação muito maior de serviços, empregos formais, informalidade, empreendedorismo e plataformas digitais.
O trabalhador que hoje dirige um carro por aplicativo ou faz entregas pode ter prioridades diferentes das de um operário de fábrica dos anos 1970. Ao mesmo tempo, questões como renda, segurança econômica, previdência e proteção contra riscos continuam presentes.
Conclusão
A campanha de Lula coloca novamente o trabalho no centro do discurso político, mas enfrenta uma realidade diferente daquela que marcou a formação do PT.
O desafio está em conectar uma tradição construída sobre sindicatos, fábricas e empregos formais a uma economia na qual milhões de brasileiros trabalham de maneira mais flexível e, em muitos casos, fora das relações tradicionais de emprego.
A proposta de reduzir a jornada, acabar com a escala 6×1 e regulamentar o trabalho por aplicativos representa uma tentativa de responder a essa transformação.
O resultado dessa estratégia eleitoral dependerá, entre outros fatores, da capacidade de dialogar com trabalhadores que podem querer mais proteção social sem abrir mão da autonomia e da flexibilidade que passaram a fazer parte de suas escolhas profissionais.
Fonte: IBGE, Partido dos Trabalhadores e informações apresentadas no texto de referência.


