Copom reduz Selic para 13,75% e deixa espaço para novo corte, avalia economista
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Flávio Serrano, do Banco Bmg, vê possibilidade de novo corte em novembro, mas aponta riscos de inflação e pressão do câmbio
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu nesta quarta-feira (16) a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, em decisão já amplamente esperada pelo mercado. Para o economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, a comunicação do Banco Central manteve um tom semelhante ao da reunião anterior e deixou espaço para uma eventual continuidade do ciclo de cortes.
A avaliação foi apresentada por Serrano durante o programa Giro Especial do Copom, do Money Times. Segundo o economista, a autoridade monetária não fechou a possibilidade de realizar uma nova redução da taxa básica de juros, mas também não se comprometeu previamente com uma decisão específica.
O Banco Central reduziu a Selic pela quinta reunião consecutiva, em um momento de desaceleração da atividade econômica e de melhora recente de alguns indicadores de inflação. Ao mesmo tempo, permanecem riscos relacionados ao cenário externo, ao câmbio, aos preços dos combustíveis e às expectativas de inflação.
Comunicação do Copom mantém espaço para novos cortes
Na avaliação de Flávio Serrano, um dos principais pontos do comunicado divulgado após a reunião foi a manutenção da mensagem de que a política monetária continua voltada à convergência da inflação para a meta.
O economista considera que essa formulação deixa aberta a possibilidade de uma nova redução da Selic, caso os próximos indicadores confirmem um ambiente favorável para a continuidade do processo.
“O Copom deixa uma porta aberta para fazer o que for necessário, seja um novo corte nos juros ou não no próximo encontro”, avaliou Serrano.
A interpretação é de que o Banco Central pretende preservar flexibilidade para reagir aos dados econômicos, em vez de antecipar uma trajetória fixa para a Selic.
Desaceleração da economia pesa na decisão
Outro elemento destacado pelo economista é a perda de ritmo da atividade econômica.
Na avaliação de Serrano, os dados recentes indicam que a política monetária restritiva começa a produzir efeitos sobre a economia. A desaceleração da atividade pode abrir espaço para uma redução adicional dos juros, desde que não venha acompanhada de uma deterioração das expectativas de inflação.
O cenário, portanto, coloca o Banco Central diante de um equilíbrio entre dois objetivos: permitir uma redução gradual do grau de restrição monetária e, ao mesmo tempo, evitar que a inflação volte a ganhar força.
Banco Bmg prevê nova redução em novembro
Após a decisão do Copom, o Banco Bmg manteve sua projeção de mais um corte de 0,25 ponto percentual em novembro.
Nesse cenário, a Selic chegaria a 13,50% ao ano.
A instituição trabalha ainda com a possibilidade de uma pausa posteriormente, segundo a avaliação apresentada por Serrano. Essa perspectiva dependeria da evolução da inflação, da atividade econômica e dos riscos externos.
A projeção, entretanto, representa uma avaliação do banco e não uma indicação oficial do Banco Central.
Combustíveis podem complicar o cenário de inflação
Um dos principais riscos apontados por Serrano está relacionado aos preços dos combustíveis.
Segundo o economista, existe uma diferença relevante entre os preços praticados no mercado doméstico e as cotações internacionais do petróleo. Caso essa defasagem seja parcialmente corrigida, um reajuste dos combustíveis poderia pressionar os índices de inflação.
Esse fator ganha importância porque os combustíveis possuem impacto direto sobre o orçamento das famílias e também podem afetar custos de transporte, logística e produção de diferentes setores da economia.
Para o economista, o comportamento dos preços nos próximos meses será importante para determinar se o Banco Central terá condições de continuar reduzindo os juros.
El Niño também entra no radar
Além dos combustíveis, Serrano citou os possíveis efeitos do El Niño sobre a economia.
Fenômenos climáticos podem afetar produção agrícola, alimentos, energia e outros componentes relevantes dos índices de preços. Dependendo da intensidade e da duração dos impactos, o choque pode dificultar o processo de desinflação.
Por isso, o economista trabalha com a possibilidade de uma “pausa estratégica” no ciclo de redução da Selic em determinado momento, permitindo ao Banco Central observar como a economia absorverá eventuais pressões adicionais.
Inflação de serviços continua sendo um ponto de atenção
Outro fator destacado por Serrano é o comportamento da inflação de serviços.
Mesmo com a desaceleração de alguns preços, uma eventual resistência da inflação de serviços poderia dificultar a continuidade dos cortes.
O economista também chamou atenção para as expectativas de inflação, que, segundo sua avaliação, vêm apresentando deterioração gradual.
Nesse ambiente, uma nova piora das expectativas poderia levar o Banco Central a interromper temporariamente o ciclo de flexibilização para avaliar os efeitos das medidas já adotadas.
Decisão do Fed aumenta pressão sobre o câmbio
O cenário externo também ganhou importância após o Federal Reserve (Fed) elevar os juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano.
A decisão marcou a primeira alta dos juros americanos desde julho de 2023. O comunicado do Fed destacou que a inflação continua elevada e que a atividade econômica segue avançando em ritmo sólido.
Para Serrano, juros americanos mais elevados podem reduzir o diferencial de taxas entre Brasil e Estados Unidos e alterar o fluxo de capitais para mercados emergentes.
O efeito pode aparecer principalmente no câmbio, caso investidores aumentem a exposição a ativos americanos em detrimento de posições em países emergentes.
Real pode sofrer pressão diante de juros americanos maiores
Na avaliação do economista do Bmg, uma política monetária americana mais restritiva pode resultar em um ambiente menos favorável para o real.
Uma eventual desvalorização da moeda brasileira também pode gerar efeitos sobre a inflação, principalmente por meio de produtos industrializados e outros itens com componentes importados.
O mecanismo é conhecido: quando o dólar sobe, produtos importados e insumos cotados em moeda americana podem ficar mais caros em reais, aumentando a pressão sobre determinados preços.
Por isso, a trajetória do câmbio será uma variável importante para o Banco Central nas próximas reuniões.
Brasil reduz juros enquanto EUA elevam
A diferença entre as decisões dos dois bancos centrais passa a ser um dos principais pontos de atenção para os mercados.
| Política monetária | Nova taxa |
|---|---|
| Brasil — Selic | 13,75% ao ano |
| EUA — Fed Funds | 3,75% a 4% ao ano |
No Brasil, o Copom iniciou uma sequência de cortes que levou a Selic de 14% para 13,75%. Nos Estados Unidos, o Fed elevou a taxa para combater uma inflação que permanece acima da meta de 2%.
Essa divergência pode influenciar o câmbio, os fluxos internacionais de capital e a precificação dos ativos brasileiros.
O que o investidor precisa acompanhar
Após a decisão do Copom, o mercado passa a observar principalmente:
Inflação: especialmente os núcleos e a inflação de serviços;
Expectativas de inflação: fundamentais para as próximas decisões do Banco Central;
Atividade econômica: sinais de desaceleração ou recuperação;
Preços dos combustíveis: possíveis reajustes podem pressionar a inflação;
Petróleo: mudanças na cotação internacional podem afetar combustível e inflação;
Câmbio: eventual enfraquecimento do real pode elevar preços de produtos importados;
Fed: novas decisões podem alterar o fluxo de capitais global;
Política fiscal: mudanças nas contas públicas também podem afetar as expectativas de inflação e juros.
O que significa para a economia brasileira?
A redução da Selic para 13,75% representa uma mudança gradual nas condições financeiras brasileiras, mas a taxa continua em nível elevado.
Para empresas e consumidores, juros menores podem reduzir gradualmente o custo de crédito. Para investidores, a queda da Selic também altera a relação entre aplicações de renda fixa e ativos de maior risco.
O efeito sobre a economia, entretanto, não é imediato. A política monetária atua com defasagem, e os próximos dados de inflação e atividade serão importantes para determinar a velocidade de eventual continuidade do ciclo.
Conclusão
O corte da Selic para 13,75% ao ano confirmou a expectativa predominante do mercado e manteve aberto o debate sobre os próximos passos do Banco Central.
Na avaliação de Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, ainda existe espaço para uma nova redução em novembro, mas uma série de fatores pode levar a autoridade monetária a adotar uma pausa posteriormente.
Entre os principais riscos estão uma eventual alta dos combustíveis, os efeitos climáticos do El Niño, a inflação de serviços, a deterioração das expectativas e a pressão sobre o real provocada por juros mais altos nos Estados Unidos.
Enquanto o Brasil reduz sua taxa básica, o Fed elevou os juros americanos para até 4% ao ano, criando um cenário externo mais desafiador para moedas e ativos de mercados emergentes.
O próximo ciclo de decisões, portanto, dependerá menos do corte já realizado e cada vez mais de como inflação, atividade, câmbio e cenário internacional irão evoluir.
Fonte: Banco Central, Federal Reserve e avaliação de Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg.


