Juros futuros recuam em todos os vencimentos com eleições e PIB no radar do mercado
Curva de juros brasileira acompanha sinais de desaceleração da atividade econômica, enquanto cenário eleitoral e tensão internacional influenciam as expectativas dos investidores
Os juros futuros recuaram em todos os principais vencimentos nesta terça-feira (1º), em um movimento diferente do observado nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. No mercado brasileiro, investidores acompanharam principalmente o cenário eleitoral, os sinais de desaceleração da economia e os efeitos da política monetária sobre a atividade.
A curva de juros também reagiu aos dados do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre de 2026, que mostraram crescimento de 0,5%, mas com perda de força em setores mais sensíveis aos juros.
DI para 2027 fecha em 13,585%
O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 terminou a sessão em 13,585%, uma queda de 3 pontos-base em relação aos 13,615% registrados no fechamento anterior.
Nos vencimentos mais longos, a queda foi ainda mais expressiva.
O DI para janeiro de 2029 encerrou em 14,110%, ante 14,175% anteriormente, recuo de 6,5 pontos-base.
Já o contrato para janeiro de 2036 terminou em 14,480%, uma queda de 7 pontos-base em relação aos 14,550% registrados no fechamento anterior informado pelo mercado.
Principais taxas dos DIs
| Contrato | Fechamento | Variação |
|---|---|---|
| DI Jan/2027 | 13,585% | -3 p.b. |
| DI Jan/2029 | 14,110% | -6,5 p.b. |
| DI Jan/2036 | 14,480% | -7 p.b. |
A queda nos vencimentos mais longos indica uma mudança nas expectativas dos investidores em relação à trajetória futura dos juros e da economia brasileira.
Eleições entram no radar do mercado
O cenário político continua sendo acompanhado de perto pelos investidores.
As pesquisas eleitorais recentes envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) passaram a fazer parte das avaliações do mercado sobre o cenário para outubro.
Em períodos eleitorais, mudanças nas pesquisas podem provocar alterações nas expectativas relacionadas à política econômica, às contas públicas e à trajetória dos ativos brasileiros.
A reação dos juros, entretanto, não depende de um único fator. O mercado também considera inflação, atividade econômica, política fiscal, câmbio e decisões do Banco Central.
PIB cresce, mas atividade mostra sinais de perda de força
Outro destaque da sessão foi o desempenho da economia brasileira no segundo trimestre.
O PIB cresceu 0,5% na comparação trimestral. Apesar de o resultado ter vindo ligeiramente acima de algumas expectativas, a composição do crescimento chamou a atenção dos economistas.
Setores mais ligados ao ciclo econômico começaram a mostrar sinais de perda de ritmo, enquanto a agropecuária e a indústria extrativa apresentaram desempenho mais favorável.
Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, a economia ainda encontra sustentação em segmentos que não respondem da mesma maneira ao ciclo de juros.
Segundo a avaliação do economista, a indústria de transformação já sente os efeitos das taxas elevadas, enquanto renda, emprego, agropecuária e indústria extrativa continuam oferecendo suporte à atividade.
Juros altos começam a pesar sobre a indústria
O ambiente de juros elevados é um dos principais fatores acompanhados pelo mercado.
Taxas mais altas encarecem o crédito, reduzem o incentivo ao investimento e podem desacelerar o consumo e a produção industrial.
A avaliação apresentada pelo Banco BV é que esses efeitos deverão continuar se espalhando pela economia nos próximos meses.
A instituição projeta crescimento de 0,2% do PIB no terceiro trimestre, na margem.
Caso a desaceleração se confirme, o mercado poderá revisar suas expectativas para a política monetária, principalmente se a menor atividade vier acompanhada de uma inflação mais controlada.
Agropecuária ainda sustenta parte do crescimento
A composição do PIB também mostrou a importância do setor agropecuário para o resultado econômico.
O desempenho positivo do campo ajudou a compensar a perda de força de segmentos mais sensíveis às condições financeiras.
O ponto de atenção para os próximos meses é saber se esse impulso continuará com a mesma intensidade.
Uma eventual redução da contribuição da agropecuária, combinada com os efeitos acumulados dos juros elevados, poderia resultar em uma expansão econômica mais moderada no segundo semestre.
Treasuries sobem nos Estados Unidos
Enquanto os juros futuros brasileiros recuaram, os títulos do Tesouro norte-americano apresentaram movimento contrário.
Por volta das 18h05, no horário de Brasília, o rendimento do Treasury de dois anos estava em 4,400%, ante 4,350% no ajuste anterior.
O yield do título de 10 anos avançava para 4,796%, contra 4,758% anteriormente.
Os Treasuries são acompanhados de perto pelos mercados globais porque influenciam o custo de financiamento e as condições de liquidez internacional.
Conflito entre EUA e Irã aumenta preocupação com inflação
No exterior, o comportamento dos títulos norte-americanos também foi influenciado pelo aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã.
O presidente norte-americano Donald Trump afirmou que os ataques realizados pelos Estados Unidos contra alvos iranianos eram justificados e ameaçou ampliar a ofensiva caso Teerã respondesse.
O Irã, por sua vez, reagiu aos ataques norte-americanos com ações utilizando drones contra alvos de interesse dos Estados Unidos.
A escalada do conflito aumentou as preocupações dos investidores com possíveis impactos sobre os preços de energia e, consequentemente, sobre a inflação mundial.
Petróleo pode voltar a pressionar expectativas
O Oriente Médio é uma região estratégica para o mercado global de petróleo. Por isso, qualquer escalada militar envolvendo áreas próximas a rotas importantes de transporte de energia pode elevar o prêmio de risco da commodity.
Uma alta prolongada do petróleo pode dificultar o processo de desinflação em diferentes economias e influenciar as decisões dos bancos centrais.
Nos Estados Unidos, esse cenário pode aumentar a cautela do Federal Reserve em relação à redução dos juros.
Brasil e Estados Unidos seguem em direções diferentes
O movimento desta terça-feira mostrou uma divergência importante entre os mercados brasileiro e norte-americano.
No Brasil, a curva de juros recuou diante da combinação de atividade mais fraca e expectativas relacionadas ao cenário doméstico.
Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries subiram em meio às preocupações com inflação, política monetária e riscos geopolíticos.
Essa diferença pode continuar influenciando o fluxo internacional de capital e o comportamento do dólar, da Bolsa e dos juros brasileiros.
O que isso significa para o Brasil?
A queda dos juros futuros pode sinalizar uma melhora nas expectativas para a trajetória da política monetária, especialmente se a desaceleração econômica contribuir para reduzir as pressões inflacionárias.
Por outro lado, o cenário externo continua sendo um fator de risco.
Uma eventual alta prolongada do petróleo ou dos juros norte-americanos poderia limitar o espaço para uma queda mais rápida dos juros brasileiros.
Além disso, a proximidade das eleições aumenta a sensibilidade dos mercados às pesquisas e às propostas econômicas dos candidatos.
O que o investidor precisa acompanhar?
Para os próximos pregões, quatro fatores devem permanecer no radar:
Eleições: novas pesquisas podem alterar as expectativas para a política econômica;
PIB: sinais de desaceleração podem influenciar as projeções para os juros;
Inflação: continua sendo determinante para as decisões do Banco Central;
Cenário internacional: petróleo, Treasuries e a tensão entre EUA e Irã podem afetar os ativos brasileiros.
Mercado busca equilíbrio entre política, economia e cenário externo
A queda dos juros futuros nesta terça-feira mostra que o mercado brasileiro continua recalibrando suas expectativas diante de uma economia que começa a apresentar sinais mais claros de desaceleração.
Ao mesmo tempo, o cenário eleitoral e as tensões internacionais adicionam incerteza às projeções.
Para os investidores, o comportamento da curva de juros deverá continuar sendo um importante termômetro das expectativas para inflação, atividade econômica, política monetária e eleições nos próximos meses.


