Capital Economics vê Ibovespa atrás de bolsas emergentes em 2026 e aponta risco político
Consultoria britânica projeta maior volatilidade para a Bolsa brasileira antes das eleições e vê juros como possível fator de suporte aos ativos
A combinação entre incerteza eleitoral, composição do Ibovespa e direcionamento dos fluxos globais pode limitar o desempenho relativo das ações brasileiras em 2026, segundo avaliação da Capital Economics.
A Bolsa brasileira entrou no radar de cautela da Capital Economics. Em análise divulgada em agosto, a consultoria britânica avaliou que o Ibovespa pode ter desempenho inferior ao de outros mercados emergentes ao longo de 2026, em razão principalmente dos riscos políticos e da própria composição do índice.
O relatório foi assinado pelos economistas especializados em mercados emergentes Kimberley Sperrfechter e Liam Peach. Segundo a avaliação, o período que antecedia as eleições presidenciais brasileiras deveria ser marcado por maior volatilidade, à medida que investidores reavaliassem posições e exposição ao mercado doméstico.
A Capital Economics também destacou que a Bolsa brasileira possui uma composição diferente de outros índices emergentes, o que pode fazer com que movimentos globais de capital tenham impactos distintos sobre os ativos locais.
Ibovespa teve uma semana de forte queda
Na semana analisada pela consultoria, o Ibovespa acumulou queda de 3,27%, no pior desempenho semanal desde 2023, segundo o relatório citado.
Para a Capital Economics, não havia um único gatilho capaz de explicar todo o movimento. A consultoria mencionou diferentes fatores apontados pelo mercado, entre eles uma avaliação negativa de ações brasileiras por parte do JPMorgan e as incertezas associadas ao cenário eleitoral.
Outro elemento citado foi a retomada das ações globais ligadas à tecnologia e à inteligência artificial. Com a recuperação desse segmento nos mercados internacionais, parte do capital poderia voltar a ser direcionada para empresas de tecnologia, reduzindo o fluxo para ativos brasileiros.
A própria Capital Economics já havia indicado, em uma análise publicada em julho, que as ações brasileiras poderiam ficar atrás de outros índices emergentes devido à combinação entre risco político e perspectivas para as commodities.
Eleições entram no cálculo de risco dos investidores
A proximidade da eleição presidencial de 4 de outubro acrescenta uma variável doméstica ao cenário dos mercados.
Pesquisas eleitorais podem influenciar expectativas sobre política econômica, contas públicas, juros e câmbio, mas o efeito sobre a Bolsa não ocorre de forma automática. O comportamento dos ativos também depende de fatores externos, resultados corporativos, preços de commodities, fluxo estrangeiro e decisões dos bancos centrais.
Por isso, a avaliação da Capital Economics deve ser entendida como uma projeção de risco e desempenho relativo, e não como uma previsão de queda do Ibovespa.
No cenário atual, o mercado continua acompanhando as pesquisas e seus possíveis efeitos sobre as expectativas econômicas. Em 18 de setembro, por exemplo, o Ibovespa fechou aos 185.229 pontos, com queda de 0,41% no dia e recuo semanal de 1,02%.
Juros podem funcionar como contraponto
Apesar da avaliação cautelosa sobre a Bolsa, a Capital Economics identificou um possível fator de sustentação para os ativos brasileiros: um ciclo de redução dos juros mais intenso do que o atualmente incorporado aos preços de mercado.
A lógica é relativamente direta. Se a inflação continuar desacelerando e a atividade econômica perder força, o Banco Central poderá encontrar espaço para reduzir a Selic. Juros menores tendem a diminuir o custo de capital das empresas e podem aumentar a atratividade relativa da renda variável.
No momento analisado pela consultoria, a Selic estava em 14% ao ano, após o corte de 0,25 ponto percentual realizado pelo Copom em 5 de agosto. Na ocasião, o Banco Central deixou claro que os próximos passos dependeriam da evolução dos dados econômicos.
Desde então, porém, houve uma nova decisão: em 16 de setembro, o Copom reduziu novamente a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo. O Banco Central manteve uma postura dependente dos dados e destacou as incertezas externas e os riscos para a inflação.
Inflação perdeu força
Um dos argumentos utilizados pela Capital Economics para defender a possibilidade de novos cortes de juros era a trajetória da inflação.
Na análise de agosto, a consultoria destacou que a inflação acumulada em 12 meses havia recuado para 4,4% em julho, enquanto suas estimativas para a inflação subjacente de serviços apontavam para uma desaceleração.
Posteriormente, o quadro de preços apresentou nova melhora. O IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,22%. O resultado reforçou as expectativas de continuidade do processo de flexibilização monetária antes da decisão do Copom de setembro.
O Banco Central, contudo, continua tratando a trajetória da inflação com cautela, especialmente diante de fatores externos, petróleo e expectativas futuras.
Atividade econômica também mostra sinais de desaceleração
Outro ponto considerado pela Capital Economics foi o ritmo da economia brasileira.
A consultoria avaliava que o crescimento do PIB no segundo trimestre poderia ficar entre 0,4% e 0,5% na comparação trimestral, abaixo da expansão de 1,1% registrada nos três primeiros meses do ano.
A perspectiva também era de uma desaceleração adicional no terceiro trimestre.
Esse movimento tem duas consequências diferentes para o mercado.
Por um lado, uma economia menos aquecida pode pressionar resultados de empresas e reduzir expectativas de crescimento dos lucros. Por outro, uma atividade mais fraca pode contribuir para diminuir pressões inflacionárias e criar espaço para juros menores.
É justamente essa combinação que torna o cenário complexo para a Bolsa: crescimento mais fraco pode prejudicar empresas, mas também pode favorecer uma redução do custo do dinheiro.
Por que a composição do Ibovespa importa?
A composição do índice é outro elemento destacado pela Capital Economics.
O Ibovespa possui peso relevante em empresas ligadas a commodities, bancos, petróleo, mineração e outras companhias de grande capitalização. Dessa forma, o desempenho do índice pode ser influenciado por fatores que não necessariamente refletem toda a economia brasileira.
Petróleo, minério de ferro, câmbio e condições financeiras internacionais, por exemplo, podem provocar movimentos importantes nas ações de Petrobras, Vale e instituições financeiras.
Isso significa que uma comparação entre o Ibovespa e outras bolsas emergentes precisa considerar não apenas o ambiente macroeconômico, mas também quais setores têm maior participação em cada índice.
O cenário internacional continua importante
Além da política brasileira, investidores precisam considerar o comportamento dos mercados globais.
A Capital Economics chamou atenção para o movimento das ações de tecnologia e inteligência artificial nos Estados Unidos. Quando esses ativos recuperam força, o fluxo internacional pode mudar de direção, afetando mercados emergentes.
Ao mesmo tempo, decisões de juros nos Estados Unidos continuam importantes para moedas e bolsas de países emergentes.
O Federal Reserve elevou os juros americanos em setembro, enquanto o Banco Central brasileiro seguiu no sentido contrário, reduzindo a Selic para 13,75%. Essa divergência de política monetária pode influenciar o dólar, os fluxos internacionais e o prêmio exigido pelos investidores para manter posições em ativos brasileiros.
O que pode favorecer o Ibovespa?
Apesar da visão cautelosa da Capital Economics, alguns fatores podem funcionar como suporte para as ações brasileiras:
continuidade da desaceleração da inflação;
novos cortes da Selic, caso sejam compatíveis com os dados;
recuperação dos resultados corporativos;
entrada de capital estrangeiro;
valorização de commodities relevantes para empresas brasileiras;
melhora das condições financeiras globais;
redução das incertezas fiscais e políticas.
A concretização desses fatores, porém, depende da evolução da economia brasileira e do ambiente internacional.
O que o investidor precisa acompanhar
Para quem acompanha o Ibovespa, o cenário exige atenção simultânea a diferentes indicadores.
No Brasil, os principais pontos são inflação, atividade econômica, trajetória da Selic, contas públicas e ambiente eleitoral.
No exterior, ganham importância as decisões do Federal Reserve, os rendimentos dos Treasuries, o dólar, petróleo, minério de ferro e o desempenho das empresas de tecnologia.
A própria trajetória recente mostra como esses fatores podem se alternar rapidamente como principal fonte de volatilidade.
Conclusão
A Capital Economics projeta um cenário de maior cautela para as ações brasileiras em 2026 e avalia que o Ibovespa pode apresentar desempenho inferior ao de outros mercados emergentes.
O principal argumento está na combinação entre risco político, composição do índice e possibilidade de redirecionamento dos fluxos internacionais para outros mercados.
Ao mesmo tempo, a própria consultoria identifica uma possível fonte de suporte: a continuidade da desinflação e uma eventual trajetória de juros mais baixos.
Desde a publicação da análise original, o cenário monetário avançou com mais um corte da Selic, que chegou a 13,75% em setembro. Isso não elimina os riscos apontados para a Bolsa, mas altera uma das variáveis centrais acompanhadas pelos investidores.
Para o mercado brasileiro, os próximos movimentos dependerão da interação entre juros, inflação, atividade econômica, fluxo estrangeiro, cenário internacional e eleições — fatores que podem produzir efeitos diferentes sobre ações, câmbio e renda fixa.
Fonte: Capital Economics, Banco Central do Brasil e informações de mercado.


