Do cartão ao Pix: como o Brasil se tornou referência global em inovação nos pagamentos
O Brasil se tornou um dos mercados mais avançados do mundo quando o assunto é inovação nos meios de pagamento. Essa transformação, porém, não aconteceu de uma hora para outra. Ela foi construída ao longo de décadas, passando pela popularização dos cartões, modernização das maquininhas, expansão do crédito, criação de novas bandeiras e, mais recentemente, pelo avanço do Pix e do Open Finance.
Dados apresentados na Febraban Tech 2026 ajudam a dimensionar o tamanho dessa transformação. O sistema financeiro brasileiro registra atualmente cerca de 240 bilhões de transações bancárias por ano, sendo aproximadamente 83% realizadas por canais digitais. O Open Finance, por sua vez, já ultrapassou 154 milhões de consentimentos.
Para especialistas do setor, esses números são resultado de uma sequência de decisões, investimentos e mudanças tecnológicas que começaram muito antes da era dos aplicativos bancários.
A transformação começou com o cartão
A história da inovação nos pagamentos brasileiros remonta à década de 1950. Em 1956, o primeiro brasileiro passou a utilizar um cartão de crédito, dando início a uma transformação que modificaria progressivamente a relação entre consumidores, bancos e estabelecimentos comerciais.
Nas décadas seguintes, o mercado passou por diferentes ciclos de modernização. A expansão dos cartões, a criação de redes de adquirência e o desenvolvimento de sistemas eletrônicos ajudaram a preparar o terreno para a digitalização que viria posteriormente.
A evolução das formas de pagamento também mostrou que inovação não significa apenas criar uma nova tecnologia. É necessário desenvolver infraestrutura, reduzir custos, conquistar a confiança dos usuários e transformar o comportamento do consumidor.
Abertura do mercado mudou a disputa pelas maquininhas
Um dos episódios lembrados durante a Febraban Tech 2026 foi a abertura do mercado de adquirência.
Carlos Yamaguti, sócio-fundador e conselheiro da Afinz, relembrou o período em que assumiu a Redecard. Com a entrada de novos concorrentes, os estabelecimentos passaram a ter maior poder de negociação sobre as taxas cobradas pelas empresas.
Mas, segundo ele, competir apenas por preço não seria suficiente para garantir a sobrevivência das empresas.
A estratégia adotada envolveu investimentos de aproximadamente US$ 500 milhões para modernizar o parque de terminais de pagamento.
As maquininhas deixaram de ser apenas equipamentos instalados no caixa e passaram a desempenhar funções adicionais, como programas de fidelidade e utilização diretamente pelos garçons em estabelecimentos comerciais.
A experiência deixou uma lição importante: inovação pode ser uma estratégia de sobrevivência quando a competição aumenta.
Elo mostrou a importância de uma bandeira nacional
Outro capítulo importante foi o surgimento da Elo, bandeira brasileira criada após mudanças societárias envolvendo a antiga Visanet e a saída da Visa da sociedade.
Jair Delgado Scalco, ex-presidente da Elo, destacou as dificuldades de desenvolver uma bandeira nacional em um mercado dominado por grandes empresas internacionais.
A criação de uma estrutura própria buscava reduzir a dependência de decisões e aprovações externas, permitindo maior autonomia para o desenvolvimento de produtos e soluções.
A experiência da Elo também deixou outra lição para o setor financeiro: nem toda inovação precisa ser desenvolvida integralmente dentro de uma única empresa.
Parcerias, integração tecnológica e compartilhamento de estruturas podem acelerar a criação de novos serviços.
Inflação ajudou a moldar o mercado de crédito
A inflação também teve papel importante na história dos pagamentos no Brasil.
José Tosi, sócio-fundador da Tokeen Tecnologia e com passagem por empresas como Credicard, Fininvest e Mastercard, relembrou um período em que a inflação corroía rapidamente o valor dos recebíveis.
Segundo Tosi, existe uma percepção de que o crédito parcelado sem juros teria surgido como resposta direta à inflação. Ele explicou, porém, que o mecanismo foi desenvolvido principalmente como alternativa ao cheque pré-datado.
Naquele cenário, o financiamento e o prazo para pagamento dos estabelecimentos eram questões centrais para a sustentabilidade das operações de cartão.
A experiência demonstra como as características do sistema financeiro brasileiro foram moldadas também pelas condições econômicas de cada período.
Do SPC de papel ao big data
A transformação também ocorreu na forma como as instituições avaliam o risco de crédito.
Os primeiros birôs de crédito voltados ao varejo surgiram em 1958, enquanto estruturas direcionadas ao setor bancário apareceram em 1968.
Tadeu Silva, presidente da Acrefi e profissional com mais de quatro décadas de experiência no setor de crédito, recordou um período em que a análise era muito mais baseada no relacionamento pessoal.
Histórico de compras, reputação no comércio local e relacionamento familiar tinham grande peso na decisão de conceder crédito.
Com a chegada da tecnologia, esse processo mudou completamente. Bases de dados, operações de cartão e posteriormente o big data passaram a permitir análises muito mais amplas sobre o comportamento financeiro dos consumidores.
Para Silva, entretanto, o relacionamento pessoal não desapareceu. Ele simplesmente mudou de forma e passou a acontecer por meio dos dados e das ferramentas digitais.
Inclusão financeira trouxe um novo desafio
O avanço da bancarização brasileira é um dos grandes resultados dessa transformação. Mais de 96% da população adulta já possui acesso ao sistema financeiro, segundo os dados apresentados no evento.
Mas a expansão do acesso trouxe uma questão importante: bancarização não significa necessariamente inclusão financeira de qualidade.
Tadeu Silva chamou atenção para o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. Segundo os dados citados, 82% das famílias estão endividadas.
Na avaliação do especialista, a facilidade de acesso ao crédito não foi acompanhada na mesma velocidade por educação financeira e amadurecimento dos consumidores.
O desafio para os próximos anos, portanto, não será apenas ampliar o acesso aos serviços financeiros, mas melhorar a qualidade desse acesso.
Pedágio antecipou a ideia de pagamento invisível
Antes mesmo do Pix, o Brasil já havia experimentado uma forma de pagamento praticamente invisível para o consumidor: os sistemas eletrônicos utilizados em pedágios.
O modelo nasceu fora da indústria bancária tradicional e foi impulsionado pelas concessionárias de rodovias.
Carlos Zanvettor, vice-presidente da Corpay e criador do Sem Parar Mais, destacou que a experiência mostrou que a tecnologia, sozinha, não seria suficiente.
Para que um sistema de pagamento funcione, é necessário que as partes envolvidas confiem umas nas outras e na infraestrutura responsável pela operação.
A consolidação desse modelo levou anos. O Pix, por outro lado, apresentou uma velocidade de adoção muito maior.
Pix acelerou a transformação dos pagamentos
O Pix representa um dos capítulos mais importantes da transformação financeira brasileira.
O sistema permitiu popularizar pagamentos instantâneos e facilitou transferências entre pessoas, empresas e instituições financeiras.
Para os especialistas, entretanto, o próximo desafio será ampliar a integração internacional.
Zanvettor considera que o Pix possui uma infraestrutura moderna e robusta, mas ainda enfrenta limitações quando se trata de integração com redes globais de pagamentos.
Essa internacionalização poderá ser uma das próximas etapas da evolução dos pagamentos brasileiros.
Open Finance abre espaço para uma nova fase
Outro elemento central dessa transformação é o Open Finance.
Com mais de 154 milhões de consentimentos citados durante a Febraban Tech 2026, o sistema mostra que o compartilhamento autorizado de informações financeiras já ganhou escala relevante no país.
A tendência é que esses dados sejam utilizados para oferecer produtos mais personalizados, melhorar avaliações de risco e aumentar a concorrência entre instituições.
Ao mesmo tempo, o avanço exige atenção redobrada com privacidade, segurança cibernética e governança de dados.
Inteligência artificial deve mudar a análise de crédito
A inteligência artificial aparece como uma das principais tecnologias que podem transformar a próxima geração do sistema financeiro.
Para Tadeu Silva, a IA deverá produzir impactos importantes principalmente na avaliação de risco, permitindo que instituições analisem um conjunto maior de informações antes de tomar decisões de crédito.
Isso pode tornar as avaliações mais precisas, mas também aumenta a responsabilidade das instituições sobre a utilização dos dados e dos modelos automatizados.
A tecnologia, portanto, não elimina a necessidade de supervisão humana. Pelo contrário: quanto maior a automação, maior tende a ser a importância da governança.
Real digital e tokenização entram no radar
Outra tendência destacada pelos especialistas é a evolução dos ativos digitais, da tokenização e do chamado real digital.
José Tosi avalia que a tokenização pode representar uma evolução natural da infraestrutura financeira.
Ao mesmo tempo, existe o risco de que determinados modelos de ativos digitais provoquem mudanças profundas na intermediação tradicional entre bancos, empresas e consumidores.
O desafio será aproveitar os ganhos de eficiência sem comprometer a estabilidade e a segurança do sistema financeiro.
O que vem depois do Pix?
Para os especialistas reunidos na Febraban Tech 2026, a próxima geração dos meios de pagamento deverá ser marcada por sistemas cada vez mais configuráveis, previsíveis e transparentes.
O consumidor tende a esperar experiências mais personalizadas, nas quais pagamentos, crédito, serviços financeiros e outros produtos estejam integrados em uma mesma jornada.
Nesse cenário, empresas e bancos precisarão conciliar inovação com segurança e responsabilidade.
Dorival Dourado Jr., conselheiro independente do Banco BMG, Omni Financeira Graac e TQI Tecnologia, destacou justamente a importância de uma postura capaz de equilibrar os resultados do presente com os investimentos necessários para o futuro.
A principal lição da transformação financeira brasileira
A trajetória dos pagamentos no Brasil mostra que nenhuma tecnologia surge isoladamente.
Do cartão de crédito às maquininhas, da análise de crédito ao pagamento eletrônico em pedágios, do Pix ao Open Finance, cada etapa criou infraestrutura e conhecimento para a próxima.
O grande desafio agora é evitar que a velocidade da inovação seja acompanhada por problemas de governança, excesso de crédito, vulnerabilidades digitais ou falta de educação financeira.
Se o Brasil quiser manter sua posição de destaque no setor, a próxima etapa precisará combinar tecnologia, segurança, inclusão financeira, educação e confiança.
O futuro dos pagamentos pode ser cada vez mais digital e invisível para o usuário. Mas, por trás dessa experiência simples, haverá uma infraestrutura financeira cada vez mais sofisticada.
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