Juros globais sobem com petróleo acima de US$ 90; Brasil vai na contramão

Juros globais disparam com petróleo acima de US$ 90, enquanto Brasil vê queda nos DIs

Os mercados globais de renda fixa voltaram a sofrer forte pressão nesta terça-feira (1º), com os rendimentos dos principais títulos soberanos avançando para níveis não vistos há anos. A combinação entre escalada das tensões no Oriente Médio, petróleo mais caro e preocupações com a inflação aumentou a cautela dos investidores.

O movimento foi observado nos Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Alemanha. Enquanto os juros dos títulos públicos avançaram no exterior, o mercado brasileiro caminhou na direção oposta, com queda das taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) após a divulgação dos dados do Produto Interno Bruto (PIB).

Treasury de 10 anos chega a 4,80%

Nos Estados Unidos, o rendimento do Treasury de 10 anos, uma das principais referências do mercado financeiro mundial, alcançou 4,80%, maior nível desde janeiro de 2025.

A taxa é acompanhada de perto porque influencia diversos custos de financiamento nos Estados Unidos, incluindo empréstimos imobiliários, financiamentos de veículos e determinadas modalidades de crédito ao consumidor.

A alta dos rendimentos significa que os investidores estão exigindo uma remuneração maior para manter títulos de dívida de longo prazo.

Juros também sobem no Japão e na Europa

A pressão não ficou restrita ao mercado americano.

No Japão, o rendimento do título soberano de 10 anos, conhecido como JGB, avançou mais de seis pontos-base e chegou a 3%, atingindo o maior nível desde 1996.

Na Europa, o movimento também foi expressivo.

O título britânico de 10 anos, o Gilt, alcançou rendimento de 5,2341%, maior patamar desde junho de 2008. O Gilt de 30 anos subiu nove pontos-base, para 5,8856%, atingindo o maior nível desde março de 1998.

Na Alemanha, o Bund de 10 anos chegou a 3,3546%, uma nova máxima do ano. O título alemão de dois anos também superou o nível mais elevado desde julho de 2024, chegando a 2,9496%.

Principais taxas de juros dos títulos

PaísTítuloRendimento
EUATreasury 10 anos4,80%
JapãoJGB 10 anos3,00%
Reino UnidoGilt 10 anos5,2341%
Reino UnidoGilt 30 anos5,8856%
AlemanhaBund 10 anos3,3546%
AlemanhaBund 2 anos2,9496%

Petróleo volta a pressionar a inflação

Um dos principais fatores por trás da alta dos juros globais é o aumento do preço do petróleo.

A intensificação do conflito entre Estados Unidos e Irã elevou as preocupações sobre a oferta mundial da commodity e sobre o futuro do tráfego pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do planeta.

O Brent, referência internacional, disparou 4,6% nesta terça-feira e fechou a US$ 94,65 por barril, segundo os dados citados no mercado.

A preocupação dos investidores é que um petróleo persistentemente mais caro possa aumentar os custos de transporte e produção e dificultar o processo de desaceleração da inflação.

Ataques entre EUA e Irã aumentam incerteza

O Comando Central dos Estados Unidos confirmou que forças americanas realizaram ataques contra alvos ligados à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) no Irã.

O presidente americano Donald Trump classificou a ação como justificada e afirmou que os ataques poderiam ser ampliados caso Teerã respondesse.

Do lado iraniano, a agência Tasnim informou que o país responderia de forma intensa aos ataques.

A possibilidade de uma nova escalada militar aumentou a incerteza sobre o fornecimento internacional de petróleo e contribuiu para a deterioração do ambiente nos mercados.

UBS BB prevê volatilidade nos títulos

Estratégias do UBS BB avaliam que os rendimentos dos títulos soberanos devem continuar apresentando forte volatilidade no curto prazo.

Além das tensões geopolíticas, o banco cita outros fatores que pressionam os mercados de dívida, como:

  • incertezas sobre a política monetária do Federal Reserve;

  • preocupações com a situação fiscal;

  • aumento das emissões de dívida;

  • necessidade de financiamento relacionada à expansão da inteligência artificial;

  • risco de inflação provocado pelo petróleo.

Para os Estados Unidos, o banco projeta que os Treasuries de 10 e 30 anos terminem o ano com rendimentos de 4,5% e 5%, respectivamente.

Inflação americana continua no radar do Fed

A pressão sobre os preços também preocupa o Federal Reserve.

Na semana anterior, o presidente do banco central americano, Kevin Warsh, afirmou que o Fed ainda teria trabalho a fazer caso a inflação não avance rapidamente em direção à meta de 2%.

O indicador de inflação preferido pelo banco central americano, o PCE, registrou alta de 3,7% em agosto, permanecendo acima da meta.

Esse cenário dificulta a tarefa do Fed de reduzir os juros sem correr o risco de reacelerar as pressões inflacionárias.

UBS BB aposta em recuperação gradual do petróleo

Apesar da alta da commodity, o UBS BB mantém uma avaliação relativamente menos pessimista para o petróleo.

O banco considera que os preços podem permanecer acima dos níveis registrados antes do conflito, mas ainda ficar abaixo daqueles associados a um choque capaz de provocar uma forte desaceleração da economia mundial.

O cenário-base da instituição considera uma reabertura gradual do Estreito de Ormuz, permitindo a recuperação progressiva do fluxo de petróleo.

Se essa hipótese se confirmar, a pressão inflacionária provocada pela energia poderá diminuir ao longo do tempo.

Brasil segue caminho diferente

Enquanto os juros dos títulos soberanos subiram em diversas economias, o mercado brasileiro apresentou comportamento oposto.

As taxas dos contratos de DI fecharam em queda após a divulgação do PIB do segundo trimestre.

A economia brasileira cresceu 0,5% na comparação com o primeiro trimestre, depois de avançar 1,1% nos três primeiros meses do ano.

Na comparação anual, o PIB teve expansão de 2%.

O resultado ficou acima das expectativas dos economistas consultados pela Reuters, que projetavam crescimento de 0,4% na margem e de 1,8% na comparação anual.

Consumo das famílias chama atenção

Apesar do crescimento da economia, o comportamento do consumo das famílias foi um dos pontos que mais chamou a atenção dos investidores.

A percepção de perda de força da atividade pode contribuir para reduzir pressões inflacionárias e aumentar o espaço para cortes da Selic, atualmente em 14% ao ano, segundo os dados apresentados no material.

O economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, avaliou que o Banco Central poderia continuar reduzindo os juros de forma gradual, mas destacou a necessidade de cautela diante dos choques de custos e das incertezas do cenário eleitoral.

Taxas de DI recuam

No final da tarde, o contrato de DI com vencimento em janeiro de 2028 era negociado a 13,745%, uma queda de sete pontos-base em relação ao ajuste anterior, de 13,815%.

Na parte mais longa da curva, o DI para janeiro de 2035 estava em 14,5%, recuando nove pontos-base ante os 14,594% registrados na sessão anterior.

Mercado de juros no Brasil

ContratoTaxaVariação
DI Jan/202813,745%-7 bps
DI Jan/203514,50%-9 bps

Dois cenários diferentes no mercado global

O movimento desta terça-feira mostra uma diferença importante entre Brasil e grandes mercados internacionais.

No exterior, petróleo mais caro, riscos geopolíticos e inflação aumentaram a pressão sobre os títulos públicos.

No Brasil, por outro lado, sinais de menor força no consumo e a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes da Selic ajudaram a derrubar as taxas futuras.

O cenário, entretanto, continua sujeito a mudanças. Uma escalada prolongada no Oriente Médio que mantenha o petróleo acima de US$ 90 poderia aumentar novamente as pressões inflacionárias globais e dificultar a atuação dos bancos centrais.

Para os investidores brasileiros, o comportamento do petróleo, dos Treasuries e do dólar continuará sendo fundamental para determinar o nível de pressão sobre os ativos domésticos.

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Leonardo Guimarães

Escritor e blogueiro

Sou Leonardo Guimarães, analista político e escritor apaixonado por informação, debate público e pelos bastidores da política brasileira. Acompanho diariamente os principais acontecimentos do Congresso, STF, eleições e economia, trazendo análises, opiniões e notícias com uma linguagem clara, direta e atualizada para manter você sempre bem informado.

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