Nova safra de soja do Brasil pode cair ‘um pouco’ com El Niño, diz executivo da Cofco

Soja 2026/27 pode ter área maior, mas El Niño ameaça produtividade, diz Cofco

Cofco prevê expansão moderada do plantio brasileiro diante de margens menores e crédito mais restrito; clima será principal fator de risco para a produção

A próxima safra de soja do Brasil pode apresentar um cenário de crescimento mais contido. A área plantada em 2026/27 tende a avançar, mas em ritmo menor do que o observado nos últimos anos, enquanto a produtividade poderá ser afetada pelas condições climáticas associadas ao El Niño.

A avaliação foi feita nesta quinta-feira (20) por Luiz Noto, CEO da Divisão de Grãos e Oleaginosas da Cofco no Brasil, em entrevista à Reuters.

Segundo o executivo, os produtores enfrentam um ambiente de margens menores e maior dificuldade de acesso ao crédito, fatores que podem limitar a expansão da área cultivada. Ao mesmo tempo, a presença do El Niño coloca o clima entre os principais pontos de atenção para a produtividade da oleaginosa.

O resultado pode ser uma combinação de mais hectares cultivados, mas uma produção crescendo menos ou até recuando, dependendo da intensidade dos efeitos climáticos.

Área de soja deve continuar crescendo, mas em ritmo menor

O Brasil vem ampliando sua área de soja ao longo das últimas safras, consolidando a oleaginosa como uma das principais culturas agrícolas do país.

Para a temporada 2026/27, entretanto, Noto avalia que esse movimento pode perder velocidade.

Entre os fatores apontados estão a redução das margens dos produtores e as dificuldades financeiras enfrentadas em um ambiente de crédito mais restrito.

A expansão da área, portanto, não deve ser interpretada automaticamente como sinal de uma safra recorde.

Isso porque a produção agrícola resulta da combinação entre área plantada e produtividade por hectare. Se o rendimento das lavouras cair de maneira significativa, uma expansão da área pode não ser suficiente para elevar a produção total.

El Niño coloca produtividade no centro das preocupações

O principal risco mencionado pelo executivo está relacionado ao clima.

Noto afirmou que o El Niño está confirmado e avaliou que seus efeitos sobre as diferentes regiões produtoras poderão determinar o comportamento da produtividade na próxima safra.

O fenômeno costuma alterar o regime de chuvas no Brasil de maneira regionalmente distinta. De forma geral, pode favorecer maior volume de precipitações no Sul, enquanto aumenta o risco de períodos mais quentes e secos em áreas do Centro-Norte.

Essa diferença regional é particularmente importante para a soja, já que o calendário agrícola e as condições de chuva variam entre os principais polos produtores.

Por isso, o mercado tende a acompanhar não apenas a confirmação do fenômeno climático, mas também sua intensidade, duração e distribuição das chuvas durante o desenvolvimento das lavouras.

Brasil encerrou última safra com recorde de 180,5 milhões de toneladas

A avaliação da Cofco ocorre após uma temporada de produção excepcional.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mencionados no texto-base, o Brasil encerrou a última colheita com 180,5 milhões de toneladas de soja, novo recorde nacional.

O resultado elevou ainda mais a importância do país no comércio mundial da oleaginosa.

O Brasil é atualmente o maior produtor e exportador global de soja, o que faz com que qualquer alteração relevante na produção nacional tenha impacto potencial sobre a oferta disponível para exportação e sobre o abastecimento interno.

Para a safra 2026/27, contudo, Noto não apresentou uma estimativa numérica de produção.

A avaliação da Cofco é de que, mesmo com eventual redução da produtividade, a produção brasileira deverá permanecer compatível com a demanda doméstica e internacional.

Crédito e rentabilidade também pesam na decisão do produtor

O componente econômico é outro elemento importante para entender o ritmo de expansão da área.

A soja exige capital para aquisição de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, combustível e demais insumos. Em um ambiente de crédito mais restrito, produtores com menor disponibilidade financeira podem reduzir investimentos ou adotar uma postura mais cautelosa na expansão das lavouras.

Além disso, margens menores diminuem o incentivo para ampliar a área cultivada.

Isso significa que a decisão do produtor para a próxima temporada não dependerá exclusivamente do preço da soja. Também entram na conta os custos de produção, disponibilidade de crédito, preços dos insumos, condições climáticas e expectativa de produtividade.

Exportação e logística ganham importância

A avaliação sobre a próxima safra foi feita durante um evento relacionado ao primeiro embarque de sorgo brasileiro para a China realizado pela Cofco.

Na ocasião, o executivo também fez um balanço inicial da utilização do novo Terminal Export Cofco (TEC), no porto de Santos.

Segundo Noto, a companhia registrou crescimento significativo no corredor de Santos durante o escoamento da safra 2025/26.

A expansão teria ocorrido tanto no volume transportado por ferrovia a partir do Mato Grosso quanto na participação da empresa em regiões que utilizam o porto de Santos como corredor de exportação, incluindo Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Novo terminal amplia capacidade de exportação

A primeira fase do Terminal Export Cofco possui capacidade de movimentação de aproximadamente 12 milhões de toneladas por ano.

A estrutura já foi utilizada para exportações de soja, milho e açúcar, além do sorgo embarcado recentemente.

A Cofco informou que pretende concluir por volta de outubro a segunda fase do projeto. Com a expansão, a capacidade do terminal deverá chegar a 14,5 milhões de toneladas anuais.

O executivo também afirmou que novos silos de armazenagem ampliarão a capacidade portuária, enquanto os dois berços do terminal já estão em funcionamento.

A expansão representa um movimento relevante do ponto de vista logístico porque o aumento da produção agrícola brasileira exige infraestrutura compatível para armazenagem, transporte e embarque.

Produção maior exige logística eficiente

O avanço da capacidade portuária ganha importância diante do crescimento da produção agrícola brasileira.

Uma safra maior pode aumentar a necessidade de transporte ferroviário, armazenagem e capacidade de exportação. Gargalos em qualquer dessas etapas podem elevar custos e reduzir a eficiência da cadeia.

Nesse contexto, a expansão do terminal da Cofco em Santos ocorre em paralelo à busca do setor por alternativas para escoar volumes crescentes de grãos e outras commodities agrícolas.

A conexão ferroviária com regiões produtoras, especialmente o Centro-Oeste, é um dos elementos estratégicos dessa operação.

O que o mercado deve acompanhar na safra 2026/27

Para a próxima temporada de soja, os principais indicadores a serem monitorados são:

  • evolução da área efetivamente plantada;
  • distribuição das chuvas;
  • intensidade e duração do El Niño;
  • produtividade por hectare;
  • preços internacionais da soja;
  • custos de fertilizantes e defensivos;
  • disponibilidade de crédito rural;
  • margens dos produtores;
  • demanda chinesa;
  • ritmo das exportações brasileiras;
  • estoques domésticos;
  • capacidade de armazenagem e logística.

A combinação desses fatores determinará se o Brasil conseguirá repetir o desempenho excepcional da safra anterior.

Conclusão

A perspectiva apresentada pela Cofco para a safra brasileira de soja 2026/27 combina dois movimentos que podem caminhar em direções diferentes: a área plantada ainda pode crescer, mas em ritmo mais moderado, enquanto a produtividade poderá sofrer influência das condições climáticas associadas ao El Niño.

O resultado final dependerá principalmente do comportamento do clima durante o ciclo agrícola. Uma expansão dos hectares cultivados não garante, por si só, aumento da produção.

Ao mesmo tempo, a Cofco amplia sua estrutura logística no Brasil. O Terminal Export Cofco, em Santos, deve passar de 12 milhões para 14,5 milhões de toneladas anuais após a conclusão da segunda fase.

Assim, enquanto produtores se preparam para uma safra marcada por incertezas climáticas e financeiras, as grandes tradings continuam ampliando a infraestrutura necessária para movimentar a produção agrícola brasileira.

Fonte: Reuters, Cofco e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), conforme informações do texto-base.

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Leonardo Guimarães

Escritor e blogueiro

Sou Leonardo Guimarães, analista político e escritor apaixonado por informação, debate público e pelos bastidores da política brasileira. Acompanho diariamente os principais acontecimentos do Congresso, STF, eleições e economia, trazendo análises, opiniões e notícias com uma linguagem clara, direta e atualizada para manter você sempre bem informado.

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